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Cronicando o Piauí: O palco iluminado

24 de setembro de 2018
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Início da década de 1960. Os anos de eleição e o decorrer do mandato eram acirrados. Eram homens que assinavam com o fio de cabelo do bigode. Terminou a política e o papai ficou sendo perseguido. Jurado de morte. Ele só andava na companhia do Antonio José, do Pereirão e do Duzento. Que trabalhavam na Boca-de-pau. Era assim que chamavam o Distrito. Os outros amigos ficavam se revezando à noite. Ficavam escondidos lá por dentro de casa. Todos armados.

Uma noite, alguém achou estranho a movimentação das folhas de uma árvore frondosa, que ficava em frente a casa. Não estava ventando. Como podia aquelas folhas estarem balançando… Pegaram o rife papa-amarela, que o vovô havia trazido de São Miguel do Tapuio e mais umas armas, que general havia mandado. Juntaram-se o papai, o Raimundão, o Manel da Cachorra e o tio Napoleão. Quando chegaram debaixo da árvore o Raimundão viu o caboco e quis atirar. O papai bateu com a mão no revólver e disse: Calma!

– Desce daí caboco!

Já desceu gemendo. Usava costeletas e uma “mosca”. Trazia na cintura um revólver, calibre 38 – canela-seca, e uma peixeira amolada, que cortava até o vento. Pegou umas taponas, mas não queria entregar o mandante. Levaram-no pro quintal e foram dá-lhe um banho, pentear, passar perfume… mas nada do infeliz declinar o mandante.

– Como é, mata o home!? Perguntou Pereirão.
– Calma, vamos falar com o general! Disse o papai.

O Antonio José chega fungava. Deram uns “caldos”, no tanque do gado beber, mas o cabra não abria a boca. Gemia, mas dizia. Não dava certo para prender o homem. Estava todo quebrado. Sangrava por tudo quanto era de orifício. Deram um banho nele com sal grossa e cachaça. Amarram as mãos dele para trás e deixaram sentado no chão encostado numa coluna. A mamãe queria se meter, e o papai mandava ela voltar pro quarto.

– Napoleão, vá à casa do cumpade Quinca Basto e traga-o com o Toranga trazendo o caminhão. Não fale nada lá! Quando chegar aqui, converso com ele.

Se reuniram na sala, era na lamparina, o papai, o seu Quincas e o Raimundão. Chegaram a seguinte conclusão: levar o home e soltar lá no povoado Alegria. Se morresse…

Botaram na carroceria do caminhão, em cima da lona, amarrado e piado. Desceram para Alegria. Caiu um torró d’água. Chuva torrencial. A estrada era de barro, margeando o rio Poti. Saltaram o cramunhão na beira do rio e vieram embora. Mas não morreu. Depois de algum tempo souberam notícias dele Mercado Velho.

Com essa, a mamãe se apavorou. Ficou ressabiado. Chorava dia e noite. “Ser besta, mulher! O home só morre uma vez!”

O general, preocupado, chama o papai e manda ele com a mamãe, os filhos – toda prole -, e tudo quanto era de animais: gado(bezerro, novilho, novilha, garrote, garrote, vaca e touro), criação(cabrito, cabra, bode, burrego, ovelha, carneiro), galinha, peru, capote, guiné, porco… até o chico-preto da mamãe e o pintassilgo do Beto, foram. De mala-e-cuia. Foram pro Sumaré, caminho da Nazaria. Mas não era para ninguém saber.

A mudança foi feita nos caminhões do seu Quincas Bastos. Eram amigos e compadres. Ele era chefe do Setor de Contabilidade dos Correios e Telégrafos, e tinha as olarias no povoado Alegria. O Toranga, antes de ser vereador, por vários mandatos, foi motorista da olaria. Puxando tijolo e telha. Eles o lançaram (mas, esta estória, fica para um outro dia).

Sumaré… O terreno era bonito e estruturado. Beneficiado. Tinha casa de alvenaria toda avarandada em cima dum morro. Tinha poço cacimbão. Água cristalina. Curral. Aprisco… tinha, em abundância, o pau-d’arco roxo e amarelo(hoje, chamam de ipê).

Tudo corria bem. Até que, uma “bela” tarde, o papai está sentado no terreiro jogando milho para as galinhas, quando alguém grita da cancela:

– Dê uma esmolinha para São Francisco! Pelo o amor de Deus!

Trazia sobre os seios o quadro com a imagem do santo. O papai respondeu de lá:

– Santo não precisa de dinheiro não, minha senhora, pois não come, veste e nem bebe!

A mamãe, ouvindo, veio da cozinha alucinada e o repreende:

– Tu é louco, Antoim, em dizer isso prum santo!?

Ele deu de ombro e continuou a jogar os grãos. Agora, pros patos, pros guinés, pros perus e pras galinhas.

– Pere aí, minha senhora!

À noite, do nada, começou a dar uma febre que tremia de calafrio. Passavam-se os dias e a febre não passava. Chamaram o Dr. José Jovita, que era seu parente. Veio várias e várias viagens ao Sumaré para tratá-lo, mas a febre era renitente. A mamãe, para tratá-lo começou a vender o gado. Ele no fundo da rede definhando. Acabou o gado. Passou a vender as criações. E o Dr. José Jovita acompanhando-o direto. Acabaram as criações. A mamãe manda chamar o Raimundão e lhe comunica a situação financeira. O Raimundão fala com o general e com o Quicas Bastos. Mandam buscar todo mundo de volta, pois lá ele iria morrer. Só restaram umas poucas galinhas e umas porcas.

Seu Quincas mando umas vacas para dar leite pros pequenos, para fazer doce e gualhada. Foi ao Mercado Velho da Piçarra e deixou contrato com os magarefes e as verdureiras para fornecer toda a carne e todas as verduras e as frutas, que a mamãe precisasse. Foi ao armazém e comprou o seco e molhado, tudo de saco, de caixa e de lata. Inclusive o Querosene Jacaré para abastecer as lamparinas. Na Piçarra, os comerciantes, ou eram seus amigos ou seus compadres. O general tomava conta da medicação e mais alguma coisa que necessitasse. O Raimundão ficou morando lá em casa, para ajudar a tomar conta das vacas. Era primo da mamãe de primeiro grau. Ele definhava e mamãe chorava. De 130 kilos, caiu para 70, 60. Um homem de 1,96 de altura. Ela, vendo ele morrendo, fez uma promessa, para levá-lo para assistir a missa em Santa Cruz dos Milagres e banhar na água milagrosa da fonte que não seca. O vovô era devoto Dela. E lavava, todos os anos, nos Festejos e nas Invenções(rezam-se 100 Aves-Maria: metade da oração em pé e metade de joelhos. Minha mãe, aos 85 anos, ainda aguentava reza todas – só pros fortes), a família toda.

Foram pagar a promessa no Jeep verde, cara-alta, do Raimundão. Primeiramente, era para ir numa Rural, por ser mais confortável, do compadre Gildázio, mas o Jeep aguentava mais o tranco. Era um jumento de forte. Não havia estrada. Foram 15 dias de viagem. O inverno era pesado. As chuvas cortavam as estradas. Era um Deus nos acuda. Espalhou-se menino para todo lado. Uns ficaram na casa da tia Celeste. Outros com a tia Risoleta. Outras com a tia Nadir.

Embarcaram no Casquinha: o Raimundão, o papai, a mamãe, o tio Chico e o João (mecânico). O João tinha uma oficina nas redondezas da Ponte Metálica. Andou tendo problema com uma “mulher de vida fácil”, e o papai andou livrando de pegar umas cadeias. Além das bagagens, que eram poucas, levavam a caixa de ferramentas do João, facão, foice, enxada e machado, para tirar o carro do atoleiro e cortar algum pau caído no meio da estrada.

A mamãe, sentada no banco de trás, segurava o papai. Fazendo as vezes do cinto de segurança. Quando o João e o tio Chico fumavam, ele pedia um trago.

– Ô minha velha, deixa eu dá pelo menos um trago, antes de morrer!

E ela, mesmo chorando, dava. Depois de enfrentarem, heroicamente, chuvas torrenciais. Atoleiros. Muriçocas. Frio. Dormir na beira da rodagem. Até ponte fizeram com tronco de pau, corda e cipó para atravessar onde a água da chuva arrebentava a estrada de carroçal.

Depois, de todo sofrimento, ainda dançaram muitos carnavais. Fizeram muitas serenatas. Viveram de boemia e de orgia. E tomaram cachaça cantando e recordando as agruras da vida.

 

A vida deles era um palco iluminado/ Viviam vestidos de doirados/ Eram palhaços das perdidas ilusões…(Parafraseando Holando Silva – Cantou das multidões).

Tags: Crônicacronicando o piauí

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